terça-feira, 1 de junho de 2010

MACBRÁS

No meu primeiro emprego, nas Estacas Franki, não passei da experiência. Eu era uma péssima recepcionista. Já no meu segundo emprego de secretária, na Macbrás, eu fui bem sucedida, e fiz amizades maravilhosas. Era uma empresa que confeccionava Coleções Jovens para exportação com a etiqueta Hobby Catch e era ligada à Fábrica Bangu. A turma de lá era maravilhosa, e trago ótimas recordações: Nilcéia, Vera, Jorge Poeta,  Penha, Cirene, Zé Carlos, Sérgio Garibaldo (morcegão),Marinho, Carlinhos, Willian, Fred, Newton, Tânia, Leporace,  Luíza, e a grande paixão da minha vida: Heitor, uma pessoa encantadora que me enfeitiçou, e me fez perder muitas noites de sono, pois me adorava como AMIGA. Ele me rendeu inúmeras poesias. Lá tive minha primeira experiência gastronômica: fiz um torta de coco, e levei pra comemorar o meu aniversário. Ficou terrível, dura igual um pau. Só o recheio prestou, e rendeu muita encarnação dos colegas.Infelizmente a empresa foi mal administrada e teve de fazer demissões em massa, e num desses barcos, eu fui. Foi um chororô pra todos os lados, e eu sofri demais com essa ruptura, muito mais pelos amigos que ficaram, do que pelo emprego propriamente dito. Mas também tive a primeira experiência de uma energia misteriosa que nos abraça, nos amparando  e nos ajudando nas horas difíceis.
O dia seguinte ao da demissão, para a qual já tinha sido preparada emocionalmente, passei por um dia extremamente triste, depressivo, mesmo. E esse dia me rendeu o poema abaixo.

MACBRÁS

Sonhei com vocês, acordei,
abri os olhos, levantei.
Um copo de leite. Fumei,
liguei o rádio e sentei.
Parada, inerte, estástica.
Parada. Parada. Parada.
Não pensava, não chorava, não sentia.
Parada que estava... Parada.
Respirei fundo. Me absorvi
ajudando meus velhos. Esqueci.
Meu almoço parado, não mexi.
Meu olho parado comia
o pedaço de céu que aparecia
na porta.
É, a estrada é mesmo torta.
O Céu parado, o almoço parado,
a saudade calada, parada,
e eu... parada.
Olhando pra frente revia
imagens recentes, presentes.
Primeiro sinal de vida aparecia:
eu sentia, e o que sentia
era melancolia.
Me levantei, caminhei,
telefonei, me emocionei,
voltei, me sentei, chorei,
jantei, fumei e saí.
Olhei novamente o céu:
Gente, estava lindo!
Eu, tão pequenina, olhando
aquela imensidão sorrindo,
se abrindo pra mim.
Entrei.
Com o calor que estava, suei.
Tomei um banho, deitei
e mais um cigarro, fumei.
Abri a janela, e um vento
refrigerante entrou no meu quarto.
Aspirei com força esse ar.
Era Deus me visitando,
entrando em mim, me olhando.

Estou triste, muito triste.
Mas minha tristeza é tão doce,
como não esperava que fosse.
Não destrói, não desanima,
ao contrário, me dá forças
pra percorrer meu caminho torto.
O vento passeou no meu corpo.

Eu sou maravilhosa,
pois se assim não fosse,
digna de vocês não seria,
saudades não deixaria,
imagens não ficariam,
de mim se esqueceriam,
por mim  não chorariam.

Minha tristeza era paz.
E Deu aqui do meu lado
no vento que entrou no quarto
e purificou o ar.
O Vento era Deus:
bateu no meu rosto
e eu senti que cresci,
aprendi, renovei, renasci.
Fazendo meus planos, sorri:
É, a estrada é mesmo torta
(e não é de coco).
E como sempre, venci
essa dor que não dói,
acrescenta.
Respirei Deus e dormi.

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