Muito bom, isso de escrever. Vicia e me distrai enquanto espero as pestes de minhas filhas.
Sobre mim: infância feliz, pés no chão, banhos de chuva, de rio, queimada, chicotinho queimado, roubar frutas, correr dos marimbondos, dos gansos, de cobras, sacanear os outros com aquelas cobrinhas de mentira que a gente arrastava nas esquinas, pra dar sustos; chamadas pras brigas nas esquinas (me encontre lá às tantas horas, que você vai se ver comigo), brincava de morcego (subia numa escada de madeira que levava à laje da minha casa, e me pendurava de cabeça pra baixo. Cada dia um degrau mais alto. Hoje tenho pavor de altura. Onde estava minha mãe que me deixava fazer aquilo?), surras homéricas do meu pai, que me deixavam com as pernas marcadas pelo cinto, em roxo, verde e azul. Mas ele também tinha seu lado bom: protetor, amigo, defensor, apesar de machista e tirano. Era aquariano e enxergava longe. Quando eu falei que iria cursar Letras, ele disse que eu tinha era de fazer Direito ou Contabilidade. Teimosa que sou, nunca usei meu diploma de Letras pra nada e me tornei uma excelente contadora. Ele tinha uma coração enorme, era muito trabalhador, um guerreiro, mesmo, mas tinha um gênio do cão, e foi assassinado em Niterói,em 1982, provavelmente pela milícia que ele mesmo ajudou a criar. Minha mãe, melhor amiga, meu ídolo, meu anjo. Minha irmã, mais nova sete anos, era uma capeta, e muitas vezes nos demos porrada. Hoje somos unidas e sabemos que podemos contar uma com a outra. Aliás, de nossa família mesmo, só restou uma à outra.
Primeira amiga de infância: Inês. Quase não lembro de nós. Segunda amiga de infância/adolescência: Modesta.Passamos muito tempo juntas, fizemos muitas confidências. Ela era incrível: caçava formigas (daquelas, com asas) e fazia farofa pra gente comer,pegava rã, e tambem fazia pra gente comer, fazia pipas pra gente soltar. Tentou me ensinar a fazer ponte e estrela, mas eu nunca consegui. Me fez ficar com vergonha de mim mesma, quando eu reclamava de minha mãe pegando no pé (SOLANGE, ENTRA AGORA!!!!) e ela me disse que queria que a mãe dela se preocupasse assim com ela. Guerreira, logo arrumou um emprego de babá, e com seu primeiro salário me deu uma bola de presente. AMIGONA. Há pouco tempo, tentando reencontrá-la consegui localizar seu telefone, mas ainda não conseguimos nos ver.
No segundo grau, no Barão, fiz amizade com Rosimar e Tânia, que persiste até hoje. Tinha também a Nilza, mas essa despirocou totalmente, literalmente. Na Faculdade, Marinete, adorável. Quase não temos mais contato. No primeiro emprego, Nilcéia e Vera. Também já não nos vemos. No segundo emprego, Nini. Aqui na KPM minhas primeiras amizades foram Sâmara e Izete.
Primeira paquera, Anselmo, que morreu em um acidente de moto aqui perto de casa há uns 20 anos. Primeira paixão avassaladora e platônica, Heitor. Depois veio o Soares que era um bosta. Aí veio Zé Carlos. Com esse, casei. E a vida é um mar de rosas cheio de espinhos.
A vida me pregou muitas peças, mas também me deu muitos presentes. O maior de todos, minhas filhas, que amo mais do que a mim mesma, e olha que me amo pra caramba.
Consegui quase tudo o que desejei, e o que não consegui não era bom pra mim.
Hoje vivo soterrada de trabalho e responsabilidades, e meu próximo desejo é conseguir desacelerar, caminhar mais calma e tranquila. Mas, tranquilidade, acho que não terei tão cedo, pois meu lado canceriano me faz querer proteger o mundo, e me enche de preocupações por coisas que não posso resolver ou controlar. Prefiro meu lado leonino, preguiçoso, egocêntrico e desinteressado dos outros, mas ele está ficando velho e cansado e deixando meu lado canceriano ridículo e chorão se sobressair. Que droga!
Gosto de minha vida, mas quero sempre mais. Fiz muitas coisas feias e bonitas, e ainda tenho muito pra contar e confessar.
Me aguardem.