terça-feira, 18 de maio de 2010

E A BUSCA CONTINUA...

Meu quarto era um santuário. Lá dentro eu dava vazão ao meu blá blá blá mental, conversando interminavelmente comigo mesma, divagando, olhando as paredes, o teto, os móveis, a cortina, o tapete e o meu adorável cobertor azul celeste, tão gostosinho, cheirosinho, fofinho, que me acompanhou muito tempo.Quando o tempo estava frio e chuvoso, então, era tudo de bom.  Ficava ouvindo músicas no meu ultra moderno rádio de pilhas.
 E eu me dava poderosas broncas. Também me perdoava pelos meus errinhos bobinhos e  infantis.
Alguns erros, mais tarde, foram bem graves. Mas essa é outra história.


VÔO

Uma gangorra que vai,
que vem...
Meus sentimentos voando
muito além do que seriam,
além do que poderiam.
A música me transporta
em suas asas macias, azuis.
Acho que música é azul:
azul como o céu,
azul como a tinta,
azul como o meu cobertor.
A chuva não impede que eu voe.
Onde estará você agora?
Em outras bocas, outros olhos.
A saudade traz de volta
essa dor tão antiga.
Retorna o velho receio
de sofrer, sem querer.
Como poderei fugir?
Quando poderei sorrir?
Como se afasta a saudade?
Saudade!?
Não se tem saudade
do que não se teve.
Caí de novo no vácuo.
Mergulhei no imenso vazio em meu peito
onde algo bate isolado, na escuridão.
Meus ouvidos escutam o eco,
ressoam na minha cabeça
e invadem o mundo todo.
Nem a poesia me salvou:
caí no turbilhão rotineiro da vida,
me humanizei, me racionalizei,
e me transformei em nada, ou seja,
em mais um estranho ser contraditório,
perdido, vagando no mundo.






RESSACA

No meu quarto, a solidão.
A cortina vermelha balança
com o vento, na contra-dança.
Dei um porre na saudade.
E o tapete no chão se espanta
com tanta agressividade.
O quarto fechado, enclausura,
e o silêncio gritante é irritante
ao criticar a ingênua loucura.
Mas a folha branca é constante
e me olha com fiel ternura
esperando meu desabafo;
Eu não tenho o que falar
nem porque desabafar.
Meu vazio não tem remédio
e é irremediável o meu tédio.
Estou cansada.
De sonhar, de esperar, de buscar,
de chorar,  meditar  e sambar.
E não queira me cobrar remorsos
por eu ter quebrado a jura.
Meu mal é que não tem cura
e você não me conhece.
Essa gente burra....
me entristece.
AH! Vê se me esquece.





DESENCANTO

A insegura Dona Esperança
cansou de esperar
e foi embora.
Mandou lembranças
e as belas tranças
de seus verdes cabelos.
Ah! triste vida de quem tem
uma alma já sem alegria,
que só tentou a ousadia
de querer ser feliz, e foi além:
confundiu rimas e rumos
e ruminou um rude canto
enredado no rústico espanto
pra disfarçar este pranto
pelo santo encanto
que a vida não tem.

(Essa é a minha preferida. Não parece coisa de poeta grande? Tipo Drumond?)

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